Alento que satisfaz a alma

Se há coisa que gosto é de vinho.

Não nesse sentido que possam estar a pensar. Não sou nenhum alcoólico. Simplesmente gosto de apreciar um bom copo de vinho. E quando digo apreciar não é meter à boca um fundinho e cuspir tudo logo a seguir. Não, não. Gosto de um copo moderadamente cheio, de enfiar o nariz lá dentro e depois sorver um longo trago para saborear tudo o que esta bebida tem para oferecer. E seja bom ou mau, o vinho tem sempre algo de novo e diferente para nos oferecer.

Feito da mais básica das materias primas – a uva, o vinho é a verdadeira prova do domínio da alquimia, por parte do Homem. Como é possível produzir uma bebida com tantos e tão diferentes aromas, a partir de uma simples baga, senão com a mestria dos alquimistas e o saber de druídas? Sumo de uva que sabe e cheira a frutos vermelhos, maçãs, flores, erva acabada de cortar e tanto mais. Arte, ciência, uma pitada de alquimia e outra de saber popular e voilá! É uma das mais espantosas e saborosas criações da humanidade, na minha opinião.

Na sexta feira passada tive a oportunidade de provar um dos vinhos que mais me tinha chamado à atenção nos últimos tempos: o Alento Tinto. Não pela opinião massificada que aplicações como o Vivino fornecem, mas pela estética da garrafa e pela sua origem. Para quem não sabe, este vinho faz parte do portfolio da Adega do Monte Branco, liderada por Luís Louro, um ex-aluno do Instituto Superior de Agronomia – uma das referências mais sonantes da investigação e ensino agro-alimentar em Portugal. Por isso, sendo este vinho fruto da mestria de um ex-aluno da faculdade que foi a minha casa durante 6 anos da minha vida, desde a licenciatura até ao mestrado, não podia deixar de o experimentar.

Uma imagem simples e divertida esconde um vinho maduro e complexo.

Quando o verti para o copo, a cor absolutamente apetitosa, de um tom bordeux forte e maduro, deixou-me logo com vontade o beber. No entanto, quando enfiei o nariz no copo para inspirar todos os aromas que se escondiam, nada senti… Agitei um pouco o copo, para fazê-los mexer um pouco e despertar da letargia em que pudessem estar imersos e nada. Contudo, com o passar dos segundos, os aromas a fumo e a madeira começaram a despertar, crescendo na intensidade, mas sem nunca passar do subtil. Comecei então a perguntar-me como se iria comportar na boca, um vinho que tinha todos os seus aromas adormecidos. Será que só ao fim de alguns goles iria sentir a sua verdadeira essência? Ou será que, agora com todos os aromas despertos, iria revelar-se na sua total plenitude? A resposta chegou assim que as minhas papilas foram inundadas. Realmente o “abanão” surtiu efeito. De facto, o aroma a fumo é notório em toda a composição do vinho e, sendo um dos meus sabores preferidos, não fiquei de todo desalentado! Para além disso, os taninos não são tão macios como nos “rebuçadinhos” que a maior parte da malta gosta, portanto harmonizou espetacularmente com uma carne de porco à portuguesa, realçando toda a sua maturidade.

Podem achar, pela minha descrição, que este vinho não esteve à altura do desafio, mas não é nada disso. Na minha opinião (de alguém que só arranha algumas coisas disto da prova de vinhos), é um vinho bom, mas que exige uma respiração mais prolongada, para acordar os aromas latentes, e que tem de ser acompanhado com um prato que atenue os taninos e realce os aromas. Uma carne de porco à portuguesa ou à alentejana serviram perfeitamente, mas agora cada um tem a liberdade de experimentar o que melhor achar.

Mas no fim de contas o que interessa é desfrutar da boa comida e companhia que se geram à volta de um copo de vinho. Isso é que nos dá o Alento necessário para a vida! O resto é, literalmente, conversa.

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